O blog mais despretencioso da América Latina

2/15/2007

Accountability

Aceitar, aceito, mas prefiro em Dólar

Era poeta nas horas vagas e beato nas horas duras. De uns anos para cá, andava mais poeta do que beato e tinha mais horas vagas do que tempo para se dedicar às suas pequenas causa trabalhistas. Estava recém-velho, daqueles velhos que ainda passam longe da morte, fazem piada sobre o dia derradeiro mas acham cada vez menos graça nelas.

Nelson resolveu ficar velho bem. Diminuiu o número de casos. Não parou, pois o ordenado (ele é dá época em que se falava “ordenado”) de um advogado aposentado não põe vinho chileno na mesa da ceia, e nem dá videogame pra neto no natal. Só decidiu que seu tempo era seu: queria ouvir papo agradável, comer coisa gostosa e ler todos aqueles livros para os quais um dia disse: “um dia eu leio”.

Os três primeiros anos de sua velhice foram na poltrona da sala, dedicados principalmente à leitura de poema, gênero que nunca conseguira saborear com atenção enquanto sua agenda era atribulada, apesar de achar encantador. Os três seguintes foram debruçados sobre a escrivaninha, o esboço de uma carreira literária. Nelson estudou um pouco de literatura por conta própria, aprendeu a diferenciar as escolas e entendeu porque gostava de uns autores e de outros não. Aprendeu, enfim, a engenharia da métrica poética e a dividir os versos em sílabas.

Na noite do último natal, enquanto os netos pequenos corriam pela casa e resto da família tomava vinho, Nelson lia um poema russo qualquer, e então sua esposa convocou. “Vamos rezar e fazer a ceia?” Sabendo de suas responsabilidades de patriarca, abandonou o russo sobre a escrivaninha e juntou-se aos outros em volta da mesa da ceia. Não gostou nada de ser interrompido em sua leitura. Gostava de natal, do ritual, das comidas e de confraternizar com os parentes, mas estava fascinado pelo ritmo do poema e não tinha sentidos para mais nada: olhava fixamente para o chester corado e rodeado por pêssegos, no entanto parecia não enxergá-lo. Sentia o cheiro do doce de figo reservado para depois, mas nem isso o atraia. Só queria saber do ritmo russo. Da batida do poema.

Todos de mãos dadas para fazer as orações. À sua direita o neto mais velho, à esquerda a esposa, que a essa altura já lera o evangelho, puxava o Pai Nosso. “Pai nosso que estais no Céu,” sete sílabas poéticas. Ou seriam seis? Checaria depois, com mais calma. “Santificado seja Vosso nome.” Passou a apertar com o dedão e o indicador a mão do neto quando o coro dizia cada uma das sílabas. Dez? “Venha a nós o Vosso reino.” Dez apertões também, e com pequenas aliterações. O rapaz não entendia e, no “Seja feita a Vossa vontade”, começou a se preocupar. Procurou o olhar do velho, mas não encontrou, estava fixo no chester, e a mão cada vez mais firme. Apertou de volta, o avô olhou. O moço levantou as sobrancelhas e os ombros ao mesmo tempo, foi suficientemente discreto para que ninguém na roda percebesse que perguntava “o que acontece”? Recebeu na resposta um leve e sóbrio aceno de cabeça, que interpretou como “calma, eu sei o que estou fazendo”.

“Assim na Terra como no Céu,” nove. “O pão nosso de cada dia nos daí hoje,” tem doze. Seria o caso de quebrar em dois versos? Nelson se empenhava na contabilidade e o neto simplesmente assimilava os golpes, respeitando o momento de êxtase do avô, até o Amém no final do Credo. Só depois do sinal verde, “agora podemos comer”, dado por sua esposa, o velho passou a enxergar o chester e os pêssegos, e tratou de reservar em voz alta sua coxa.

O natal continuou natal. Ceia, presentinhos, docinhos e vinhos, votos de bom ano e fortuna. Crianças com sono, um primeiro brinquedo quebrado, um copo quebrado, o fim de um CD e o silêncio em seguida.

Ao se deitar, Nelson fazia, na cabeça, a retrospectiva do belo dia em família, do ótimo ano de prosperidade e paz dentre os queridos. Lembrou-se, então, das contagens silábicas que fizera durante as orações em volta da mesa, tentou corrigir o que não estava certo, repetiu algumas das sentenças das orações em voz alta, para encontrar a divisão certa. Se deu por satisfeito, a não ser por um detalhe. Juntou as palmas das mãos e fechou os olhos: “Agora, valendo: Pai nosso que estais no Céu, santificado seja Vosso nome...”

7/05/2006

Colateral


Criou coragem. Tanta coragem que saiu descalço, apesar das blusas de lã e das duas calças que o frio exigia. Mas o motivo era nobre e, concluída a operação, os efeitos dessa irresponsabilidade se minimizariam, quem sabe.
Saiu para buscar lenha. Alguns tocos para alimentar a lareira que aquecia a casa. Não estava longe a pilha de pequenos troncos cortados há alguns dias, apenas alguns passos da porta. Nada de errado poderia acontecer, não é em um minuto com os pés frios e a cabeça sob o sereno que o resfriado derruba um rapaz sadio, como ele.
Segundo seus cálculos, seis daquelas toras bastariam para aquecer bastante o fim da noite e um pouco menos o começo da manhã. Deveria escolher estrategicamente os tocos: não poderiam ser os seis grossos, pois demorariam a entrar em brasa, nem todos finos, que carbonizariam em um instante e proporcionariam pouco tempo de conforto. Com o equilíbrio cético decidiu levar, então, dois galhos relativamente finos, dois do tamanho que mais se via na pilha, médios, e dois dos troncos mais pesados que encontrasse por lá.
Eleitas as amostras do combustível, o próximo passo seria levá-las para a casa. Complicou. Duas mãos para seis troncos. Duas viagens? Não compensaria: o abrir e fechar da porta causaria desperdício de uma pequena parte do calor que já habitava a casa, e ele julgou esses centésimos de graus celsius essenciais para sua sobrevivência na madrugada. Carregar a lenha como quem leva uma pilha de revistas, apoiadas no peito e nos antebraços? Não. Sujaria a lã da blusa, corria o risco de desfiar... Teve melhor idéia: com as mãos, mesmo. Três tocos em cada mão. É claro que conseguiria. É só segurar dois posicionados paralelamente em cada mão, com o dedo indicador entre eles para que não rolem, e depois arrastar o terceiro para cima dos outros, formando uma “pirâmide de base dois” em cada mão.
E assim fez com os tocos que levaria na mão direita. Acomodaram-se perfeitamente. Segurou mais dois tocos com a esquerda, um médio e um pequeno. Bastava, então, empurrar um dos grandes para cima deles, com o apoio dos já firmes na mão direita e voltar para o calor do lar. Arrastou. Julgou tudo firme. Virou-se para voltar. Foi traído pela canhota. A mão sempre abobada lhe deu a impressão de firmeza, mas deixou cair o maior dos tocos. Bem no peito do pé esquerdo. O toco não poupou e, podendo cair na horizontal, espalhando a dor pelo pé inteiro, preferiu cair na vertical e incidir com sua “quina” na pele do coitado. Ele só não gritou para não acordar a vizinhança, mas nunca respirou tão fundo quanto dessa vez.
Junto com o toco, caiu todo seu planejamento. Entrou na casa esbravejando e levando cinco peças, deixou a porta aberta e voltou para pegar o famigerado. Tudo errado. O frio invadiu o quarto e ele fez duas viagens, como tinha que ser desde o começo. Mas com o déficit de um pé inchado e rasgado, sangrando um pouco.
Não tinha gelo nem o aparato para curativos. Fez o que pôde: queimou as duas primeiras toras, depois mais duas, mais uma e, para se sentir bem e vingado, pôs por último o desgraçado. Ajeitou-o bem no centro da lareira, queria vê-lo sofrendo, gritando por socorro. Assistiu deitado e impiedosos ao começo da agonia do toco, até que adormeceu.
De manhã, espanto. Ainda estavam lá, meio chamuscados e envoltos por cinzas, três quartos maciços do maldito.
-Irresponsável!

3/22/2006

Um Sábio

A nova Torre do Tombo, da qual nunca serei Guarda Mor


Vc q tc cmigo?
Qq vc vai fz esse fds?
Miguxa, tenhu orgulhu d nox duas!
Bjuxxx!
Estas foram expressões impensáveis há algum tempo atrás. E não é preciso voltar à década de 50 ou 60 para constatar isso. Basta analisar e-mails e os diálogos on-line que os internautas tinham há cinco anos atrás que já podemos constatar uma grande diferença no vocabulário e um índice maior ainda de mutações em palavras já existentes. Para discutir a vertiginosa mudança que sofre a língua portuguesa, trouxemos um de seus maiores entendedores de todos os tempos, Paio Soares de Taveirós, mundialmente conhecido por sua atuação como inventor da língua portuguesa escrita, entre os anos de 1189 e 1198. O início de sua produção literária inaugurou um período duradouro, de aproximadamente 350 anos, conhecido como trovadorismo. Nele aos textos se dividiam entre canções de Amigo, Escárnio e Maldizer. Nessa entrevista exclusiva à REVISTA JASON BLAIR & AMIGOS, Taveirós nos conta como encarar mais essa mudança pela qual passa a língua portuguesa, fala de política e sua nova empreitada literária.

Jason Blair & Amigos: Você consegue entender o que as pessoas andam escrevendo nas conversações por Internet?
Paio Soares de Taveirós: Infelizmente consigo. Esse tipo de mensagem, queiramos ou não, faz uma associação unicamente fonética dos vocábulos da língua portuguesa. O alfabeto é usado com base em sua eficiência e numa lei de menor esforço. E já que a lei é do menor esforço, é claro que entendo, se até os apedeutas que vêm desenvolvendo-a entendem, por que não eu?

JB&A: Como o senhor mesmo disse, essas mudanças são de cunho fonético. No entanto, acha que esse novo modo de escrever a língua portuguesa deve ultrapassar o âmbito virtual, de mensagens rápidas por Internet?
PST: Creio que tenha um certo potencial para se alastrar, mas não vai muito longe. Não passará da comunicação por bilhetes entre os que entendem os mesmos códigos.

JB&A: O que quer dizer com mesmo código?
PST: Um exemplo. Nesse fim de semana entrei num fórum de discussão sobre o paisagismo no Paraná e alguém lá escreveu a “palavra”, (se é que podemos chamar assim), “metherox”. Eu não sabia o que era, não tinha o menor palpite. Mas um certo freqüentador da página se enfureceu, pois inferiu que esse conglomerado de letras era mais um nome para “pênis”. E não era! Era uma aglutinação, juntando duas palavras: métodos heterodoxos. Nada a ver com o órgão... isso quer dizer que se uma pessoa que freqüenta diversas tribos da Internet, pode topar com diferentes significados para certas palavras ou siglas.

JB&A: O senhor acha que nesse processo há um abuso das siglas?
PST: Sim. Mas não descarto a hipótese de que isso acompanhe um movimento cíclico, como o que aconteceu com os primeiros sinais de escrita rupestre: o homem da caverna desenhou um boi, depois um cavalo, depois uma vaca e mais tarde viu a necessidade de representar inúmeros animais com praticamente o mesmo porte. As representações passaram, então, a não se diferenciar facilmente, eram todas muito parecidas, a não ser que o desenhista investisse um pouco de seu tempo desenvolvendo o desenho. Criou-se então um novo ícone, que vinha antes do desenho, para diferenciar o macho da fêmea, por exemplo. Com o tempo a gama de ícones descritivos aumentou tanto que chegamos no alfabeto, mais ou menos como conhecemos hoje. E o que eu quero dizer com tudo isso, você me pergunta. Ora, que a sigla “FDS”, muito usada na Internet para representar a expressão “fim de semana”, um dia vai representar tanta coisa diferente que será necessário inserir novas letras entre essas iniciais. E logo não será nada mais prático usar esse código, escreva logo a palavra toda!

JB&A: Mas o senhor, que começou a carreira em 1189, já presenciou várias mudanças significativas na língua. Em seu poema de estréia, A Ribeirinha, escreveu:

“E, mia senhor, dês aquel dia, ai !
me foi a mi mui mal.”


No entanto, uma leitura tomando como base o léxico atual, pode resultar em desentendimentos...

PST:
Você está dizendo que a palavra “senhor”, nesse poema, se refere a uma moça, e hoje em dia seria a um homem... pois bem. Essa é uma questão um pouco mais complicada do que parece. A partir do momento em que o sufixo “a” é acrescentado para designar o feminino da palavra, inicia-se aí um fenômeno social. É sabido de todos que as maiores sociedades primitivas se organizavam de maneira matriarcal, e o aparecimento desse sufixo no século XIII acaba com qualquer possibilidade de perpetuação dessa tendência. (Note que mesmo em 1189 meu texto já é carregado dessa influência. Mesmo com o eu-lírico masculino, o primeiro verso diz:

No mundo non me sei parelha” ,

Quer dizer, mesmo resistindo, já fazia uso dessa divisão abominável.) O resto da história todo mundo já sabe, e felizmente o cenário tem, mudado de 1950 para cá. Agora, a mudança não tem uma só direção. O movimento feminista faz um brilhante trabalho de recuperação desse espaço, mas outro ponto a ser observado é a a revolução na opção sexual da juventude de hoje em dia. O homo, o hetero, o bi, o metro, o über, o trans, o pan e o undersexualismo se confundem em uma zona cinzenta, e logo vejo o fim da partícula “a” para designar a palavra feminina, ou então o uso arbitrário.

JB&A: O senhor acompanhou a concepção do recém inaugurado Museu da Língua Portuguesa?
PST: Não e não sei de nada sobre isso.

JB&A: Mas por quê?
PST: Por ser um museu da língua, acho que eu, o seu primeiro escritor, merecia um destaque maior. Creio que sejam as questões políticas. Queira ou não, no âmbito da política cultural Brasileira ainda há um grande receio de se desligar ideologicamente dos gurus, no caso Gilberto Gil e em menor escala, mas de uma maneira singular Aldo Rebelo. Não me alinho a eles, portanto sou deixado de lado. No início dos projetos eu ainda estava engajado, mas depois da escolha totalmente parcial de Fernão Lopes para a gerência do museu, fiz questão de sair de cena.

JB&A: Acha a escolha de Fernão Lopes equivocada?
PST: Acho. O problema é que são sempre os mesmos. O Fernão tem sido, desde 1418, quando foi agraciado com o título de Guarda Mor da Torre do Tombo, beneficiado com cargos de confiança. Não tenho nada contra ele, a pesar de seguirmos correntes totalmente diferentes (ele decretou o fim do trovadorismo em sua primeira gestão). Só não concordo com o modo que as coisas são feitas por aqui. Além do que, com esse sistema vigente, era mais do que anunciada a falência do ensino médio, o que leva, entre outros equívocos muito mais graves, à uma grande confusão entre meu nome e o dele. Nunca fui Guarda Mor da Torre do Tombo, como muitos juram que fui....

JB&A: Seu problema com Aldo Rebelo se refere à proposta de reforma da língua?
PST: Basicamente sim. Discordo totalmente do modo com que ele pretendeu a condução da reforma.

JB&A:
Basicamente é isso? Algo mais?
PST: Basicamente é, mas tem ainda outras questões, de cunho pessoal, que não quero abordar aqui.

JB&A: Agora, o futuro. Em que tem trabalhado?
PST: Há uns 5 ou 6 anos eu venho fazendo pequenos trabalhos para editoras do interior, mas tenho me focado em um novo romance, que fala sobre um amor desencontrado na cidade grande e as dificuldades de relacionamento num mundo tão multifacetado. Estou estudando a melhor proposta editoria, mas ao mesmo tempo já estou até negociando o roteiro com uma produtora belga, e talvez a história saia no cinema uns três meses depois do romance. Mas, na minha idade, já não acho tão pertinente falar em futuro...




A Ribeirinha

No mundo non me sei parelha,
mentre me for como me vai,
ca já moiro por vós - e ai!
mia senhor branca e vermelha ,
queredes que vos retraia
quando vos eu en saia!
Mau dia me levantei,
que vos enton non vi fea!

E, mia senhor, dês aquel dia, ai!
me foi a mi mui mal,
e vós, filha de do Paai
Moniz, e ben vos semelha
d'haver eu por vós guarvaia ,
pois eu, mia senhor, d'alfaia
nunca de vós houve nen hei
valia d'ua correa.”


Paio Soares de Taveirós

10/04/2005

Título: é o que amo


Imagem sem título, de um artistinha que tá despontando por ae, do qual sou o mecenas.


Se tem algo realmente complicado no ofício de um escriba é dar títulos. Melhor: ou você escreve ou você dá títulos. E todos que escrevem deveriam ter alguém que desse títulos a seus textos. Geralmente, se o pretensioso tenta acumular as duas funções, um trabalho acaba estragando o outro. Um péssimo título destrói um belo texto e o contrário também.
Tenho 35 anos, não sou velho para despontar como um grande escritor. Mas também já não conto com o vigor juvenil do começo de carreira. Depois de quase 20 anos tentando a carreira literária, (comecei aos 14, com poeminhas de adolescente apaixonado...) enfim reconheço que não estou apto. Não totalmente. Com modéstia: escrevi três romances, o primeiro é sempre o primeiro, teste, o segundo saiu legalzinho até, mas o terceiro, sinceramente, é um senhor dum romance. Trata de um publicitário meio corno, meio poeta e emotivo, sabe? Eu gosto... bom, mas voltando à minha carreira. Percebi que não teria muito sucesso como autor, mercado saturado e tal, mas, em um momento de epifania, saquei que sou muito bom de títulos! Muito bom mesmo!
O terceiro dos meus romances se chama “Sublime Retirada”. O segundo tem o nome de “Carcará Meliante”, e o primeiro é o “O Caroço Oco”! Não é genial? Perceberam as curvas opostas? Conforme eu melhorei o texto, piorei o título! Não foi fácil perceber, mas está nas nossas caras.
Felizmente consegui diagnosticar antes do pior acontecer. E o que eu fiz? Fui esperto. Parei de escrever, na hora em que enxerguei o sistema. Fiquei um ano sem pegar na caneta, pensando em esquecer como se escreve. Queria ser analfabeto de novo, mas claro que não cheguei a tanto. Não importa. O que interessava era piorar o meu texto, para poder melhorar meus títulos e criar a nova profissão do futuro: o TITULEIRO! Eu, Daltony do Espíryto Santo, sou o primeiro tituleiro do mundo!
A arte é sábia. Consiste basicamente em ler o que será entitulado, (que daqui para frente chamarei de titular,) pensar em algo completamente oposto, divergente e nada a ver com o titular e tentar aproximá-lo semanticamente do que poderia ser um resumo do titular, não a ponto de deixar o título próximo dele. Na Escala de Disparidade Semântica, que eu mesmo criei nesse processo, o título deve sair do 100% e caminhar até o 63%. Ou seja, o título deve “destoar” 63% do campo semântico do titular. É claro que esse valor é uma aproximação que permite variações.
Calcular a variação também é um processo simples. Desenvolvi para isso a Tabela do Coeficiente Temático. O que quero dizer é que, dependendo do intuito, estilo, corrente, aplicação e temática do texto existe um valor adequado pare ele na Escala de Disparidade Semântica. Por exemplo, se o titular for uma tese de doutorado não pode ter um título com grau de disparidade semelhante ao aplicado a um conto de realismo fantástico, por exemplo. Mas nunca pode chegar ao triste 0% de disparidade, pois isso quer dizer que o título nada mais seria do que uma simples síntese do titular.
Na minha carreira de TITULEIRO já fui contratado por diversos figurões da literatura nacional e até internacional. É claro que eles pedem sigilo absoluto, o que eu concordo que deve ser respeitado. Como o público reagiria se soubesse que Paulo Coelho não batiza seus textos? Mas funciona assim: sou contatado pelo escritor, que me passa o original da obra sem título. Leio. Caneto. Faço minhas ponderações e sugestões, se tiver liberdade para isso (na maioria dos casos sinto que tenho, afinal sou o padrinho do texto), e, de acordo com minhas sensações e interpretações do texto, trabalho na elaboração do título.
Na verdade o título sempre foi desqualificado, renegado ao esquecimento, se comparado ao grosso da obra. Por isso mesmo sempre surgiu em um “estalo” uma primeira idéia. Os autores nunca se esforçaram em sua confecção, que pode E DEVE levar de uma a três semanas para maturar.
Concluo então que devemos valorizar essa arte. O valor dos títulos é algo incomensurável, insuperável e que merece respeito. Você pode achar estranho, mas hoje NÃO SINTO A MENOR FALTA DE TEXTOS! Não tenho vontade nenhuma de escrevê-los, me afundei em meu ofício.
A propósito, estou criando uma apostila e um curso para TITULEIROS, o pioneiro “Daltony do Espíryto Santo Titulação e Criatividade”. Creio que vocês da juventude blogueira e fotolegueira do Brasil tirarão muito de meus ensinamentos, afinal precisam de ao menos um título por dia. Comece já a bolar o título de seu post do mês que vem, ele merece esse tratamento carinhoso.
Me sinto um cara feliz e realizado por ter encontrado meu nicho, minha ocupação e meu modo de contribuir com a sociedade. Obrigado por dividir isso comigo!
Abaixo alguns dos melhores títulos que inventei. É claro que estes não batizaram nada, pois vocês saberiam quem é o autor e não quero isso. São apenas títulos muito bons que inventei, e que pretendo compilar eum dois volumes no ano que vem. Espero que gostem!
Abraços, Daltony do Espíryto Santo.

“Sangue de Irmão”
“Levante e Lembre-se do Furacão”
“Os Guindastes da Berlin Oriental”
“A Incrível História do Rapaz que Engoliu Pasta de Dente”
“Tromento”
“O Guarda-Chuva de Elói”
“Gates of Okhotsk”
“De Quando Brindamos Felizes”
“Savana”

7/19/2005

Uma andorinha só não faz verão.


monotemático? talvez...

um porco na gaiola, sob o efeito de drogas

“Mãe! Venha ver!”
“Que que foi, Cálsio...” Isso mesmo, esse era o nome do garotinho de 6 anos que se espantava com visita tão inesperada naquele momento.
“Vem ver, mãe! Logo!” E Inês foi. Não porque realmente se interessava em saber o que o garoto tinha a lhe mostrar, mas sim porque leu em alguma dessas revistinhas que “nessa fase a criança é carente, procure demonstrar atenção às pequenas coisas pelas quais ela se interessa.” Deixou de lado a mesma revista, suspirou e foi.
Chegando à sala, uma salada de emoções. Um “Ai! Meu Deus!” de espanto, um “Que gracinha”, pois o bicho era uma gracinha mesmo e em seguida uma série de pensamentos característicos das mães/chefes-de-casa/urbanas/racionais/ocupadíssimas: “Como vou tirar esse bicho daqui? Vai quebrar o vaso! Vai sujar o chão! Ai! Minha cortina! Meu lustre! Vou atrasar para a yoga!”
Pensou um pouco no procedimento para tirar aquela andorinha da sala. Correu pegar uma vassoura e fechou a porta. Cálsio ficou lá, sozinho e tentando agarrar com as mãos a ave desesperada, que cabeceava o vidro da porta/janela da sacada. O menino se divertia, pulava e buscava a andorinha, claro que não conseguia, mas tentava. Seu sorriso era prazeroso de ver, os olhos não paravam no lugar, ziguezagueavam pelo teto da sala atrás da presa.
Inês voltou e, sem perder tempo, pôs a piaçava para trabalhar. “Para trás, Cálsio! Mamãe vai tirar o passarinho de casa!” Três vassouradas no teto, duas na parede e nada. A andorinha já se cansava, mas persistia. O menino, vez ou outra, tentava com seus pulos agarra-la, mas além de não conseguir era reprimido pela mãe: “Pára, menino! Fiquei quieto aí que a mamãe sabe o que faz!” Sabia tanto sabe que derrubou uma natureza morta da parede com a vassoura. Cálsio riu, é claro, e recebeu um olhar demoníaco da mãe. Ficou quieto tentando se conformar com a surra que levaria depois da expulsão.
Mamãe desistiu da vassoura. Outros métodos lhe pareciam inviáveis e não podia perder sua aula de yoga. A solução foi pacífica: manteve escancarada a porta da sacada e cobriu a mesa de centro com um lençol velho, para que os bibelôs europeus não fossem bombardeados. Esqueceu-se de propósito do abrigo para os sofás, afinal já estavam desbotadinhos, uma cagada seria bom motivo para trocar o forro...
Sim, fugiu da batalha. Yoga era álibi. Nem gostava tanto assim. Fechou a sala, beijou a cabeça do filho e se foi.
Os olhos de Cálsio brilharam. Diversão travestida de trabalho para a tarde toda. Estava disposto a se aleijar para expulsar o bicho. Começou sua correria, pulava e tentava agarrar, exatamente do mesmo modo que fazia antes. Foram mais cinco minutos de esforços extremos de ambas as partes até que a andorinha descobriu a diferença entre o vidro e sua ausência e se libertou, horas antes do fôlego do garoto se acabar.
Cálsio vibrou realizado. “Uau! Nem demorei muito pra tocar ela pra fora! Sou bom nisso!” teve que achar outra ocupação, mas nada lhe tirava da cabeça a aventura com a andorinha.
Inês voltou, retirou o lençol. Nada de merdas n os sofás, não sabia se era bnom ou ruim. Foi tomar banho. Sérgio chegou do trabalho. “Papai! Você nem imagina o que aconteceu! Entrou um passarinho na sala e eu que expulsei ele! Foi assim: eu pulei e...” O herói foi interrompido de surpresa. “Que bom, filho. Estou orgulhoso de você.” Sérgio sentou no sofá, tirou os sapatos, chutou sem querer uma bonequinha húngara de palha e abriu aquela mesma revista.

5/12/2005


andorinha com o foco errado

um pouco de andorinhas

Depois de momentos de esforço dobrado para alcançar os demais, ela, que tinha se desviado da rota original, chega afoita. Na verdade precisaria de alguns minutos sentada em qualquer lugar, mas o grupo deve seguir sua viagem e ela concorda em ficar no final da formação em V que costumavam adotar. Batia suas asas o mínimo possível.
Anoiteceu e pararam. O local escolhido foi, como de costume, o mais alto da cidade. Nela havia um punhado de prédios, mas eram construídos em um vale. O lugar de maior altitude era uma pequena colina, marco do início de uma serra ao sul da cidade, que seria transposta na manhã seguinte. Uma construção de apenas três andares era o topo da região, e era lá mesmo que as andorinhas passariam a noite fria.
Algumas delas ficaram responsáveis por achar um pouco de comida por perto, o que não seria tão difícil. Outras montavam guarda no beiral oposto, enquanto a maioria descansava apoiada no beiral eleito, enfrentando o vento gelado e contemplando os pontos brilhantes lá embaixo.
“O que aconteceu com você? Por que ficou tanto tempo para trás de nós?- perguntou a mais gorda delas à que se perdera.
“Vocês não vão acreditar! Tive uma experiência terrível! Fui abduzida por seres humanos! Ou algo assim...”
Ela, nervosa, não soubera escolher o termo correto. Nesse momento todas as cabeças se voltaram em sua direção, e os olhos cresceram mais ainda.
“O quê? Como assim? Conte-nos!”
As dezenas de andorinhas se aproximaram da vítima do incidente e esta começou a contar-lhes a história desde o começo. O grupo desrespeitou o protocolo e em vez de manterem-se em fila ao longo da borda da construção formaram uma roda para ouvir a odisséia da companheira. As responsáveis pela vigilância deram de ombros para o perigo e as larvas capturadas para a ceia escaparam com pouco esforço.
“Bom, em um certo momento eu me cansei, queria parar por uns segundinhos e logo voaria atrás de vocês. Então eu avistei um monte de plantas bem lá no alto, na altura que a gente voava!”
A andorinha mais experiente do grupo antecipou-se e esclareceu as demais:
“Já vi isso também. É raro ocorrer um fenômeno desses nessa região. Chama-se ‘sacada’!Algumas têm vegetação vasta, mas o mais normal é que tenham apenas uma samambaia ou outra.”
Andorinhas se entreolhavam e confessavam umas às outras já terem visto o tal fenômeno. A perdida então continuou.
“É isso mesmo! E aquele jardim suspenso era tão rico... tinha tulipas, orquídeas recém desabrochadas e umas azaléias tão delicadas... eu não resisti e decidi parar por lá. O vaso de margaridas tinha até umas larvinhas gordas e fáceis de pegar, comi um pouco. Mas então o sol começou a me atrapalhar e pulei para o vaso da Espada-de-são-jorge, que estava mais afastado um pouco, tinha uma bela sombra e não batia tanto vento... depois eu vi um xaxim com uma begônia que tinha um pouco de água empoçada. Achei estranho, pois era um lugar coberto e fiquei pensando como a água parou lá...”
A andorinha sênior mais uma vez dividiu toda sua experiência com as demais.
“Isso é fruto da ação humana. Eles, sabendo que as plantas precisam de água para sobreviver, molham as que eles mesmos põem debaixo de alguma cobertura. A esse procedimento dá-se o nome de ‘regar’.”
Concluída a nota, continuou a outra.
“Pois bem. E no momento em que tomava um pouco daquela água apareceu uma pessoa! Ela passou a menos de um metro de mim, em direção ao céu azul. Eu fiquei quieta no meu canto...”
“Você estava com medo?”
“Não... só me protegi né... vai saber de que é capaz uma pessoa!”
Algumas ensaiaram uma risada de deboche, mas, assim que percebeu, a andorinha-chefe interveio reprimindo-as.
“De que riem? Vocês não sabem o que se passa na cabeça de um ser humano! Muito certo fez nossa companheira em se acuar, pois mesmo sem querer os homens podem nos causar danos gravíssimos!”
Já cansada das sábias intervenções da mais velha a outra interrompeu bruscamente o conselho.
“E aí ele andou até o meio das plantas, puxou um negócio e foi embora. Pensei então que a melhor opção era sair logo de lá, mas quando tentei voar em direção ao azul do céu algo me impediu e eu caí no chão! Eu conseguia ver o céu e as plantas todas, mas não conseguia passar daquele ponto. Era como se tivesse uma barreira invisível.”
E deu-se mais uma interrupção explicativa.
“Isso é uma coisa há muito estudada porém nunca compreendida pelos pássaros. O que realmente é não sabemos ao certo, mas sabemos que se chama ‘vidro’.”
“Então era isso mesmo que eu não conseguia transpor! Achei então que deveria tentar pelo outro lado, e adentrei o desconhecido. Não deu muito certo. Era tudo muito pequeno, não dava para voar direito. Duas batidas de asa e eu trombava com uma parede branca! Mais duas e trombava com uma cadeira, ou sei lá como isso chama. Subir também não dá, é tudo fechado, e tem lugares em que você nem vê a luz do sol! Dá um desespero... Fiquei por lá,batendo minha cabeça em tudo o que é lugar sem conseguir sair por um tempão. Ainda bem que não tinha nenhuma pessoa mais por perto. Depois parei para pensar e voltei ao vaso de azaléia... eu olhava para as orquídeas e batia no tal do vidro... resolvi esperar um pouco, fiquei no vazo brigando com uma minhoca chata e escrevendo na terra enquanto ninguém desligava aquele vidro... O sol já estava quase posto quando chegou alguém e tirou o vidro. Na mesma hora eu já saí voando. Percebi que a pessoa se assustou e tentou me bater com alguma coisa, mas no conseguiu, fui mais rápida e vazei logo!”
Depois de contada a história as andorinhas todas tomaram seus postos, mas o comentário era geral, em todo canto ouviam-se comentários sobre o caso. Algumas mais novinhas nem dormiram aquela noite.
Na manhã seguinte continuaram seu vôo rumo à serra, e na hora de montar a formação em V a coletividade das andorinhas reservou, sem titubear, para a aventureira o lugar à direita da líder. Esta olhou de lado com o semblante sério e passou a temer por seu posto.